
Todos os anos, no dia 1 de Junho tenho por hábito telefonar a uma ex-colega de trabalho para lhe dar os parabéns. Um hábito que começou já nem sei bem há quanto tempo, mas que repito com o maior prazer ano após ano. Curiosamente, não sou, nem nunca fui, particularmente amiga da pessoa em questão. Ela era a recepcionista e telefonista da empresa onde comecei a trabalhar (numa época em que as empresas ainda tinham uma voz, e todas as chamadas dentro da empresa, de entrada ou de saída, passavam por ela) e o nosso relacionamento era breve mas razoavelmente bem disposto. Sempre admirei a paciência que era preciso ter para estar um dia inteiro atrás de uma secretária (inicialmente era mesmo dentro de um cubículo) interagindo com dezenas de pessoas por dia e sendo ignorada pela esmagadora maioria. Talvez por isso, fui sempre particularmente simpática com ela, e quando saí dessa empresa para novos vôos, a Antonieta continuou a ser a voz do meu início de carreira.
Passaram já muitos anos, ela já se reformou, a dita empresa passou por mais de meia dúzia de nomes e de grupos económicos, dos cento e tal empregados da altura restam cinco ... mas os anos da Antonieta continuam a ser no dia 1 de Junho, e eu, talvez por fazer anos neste mesmo mês, nunca me esqueço, e ligo-lhe sempre, no próprio dia, ou no dia da semana mais próximo. Este ano não foi excepção. E lá estava, do outro lado, a voz ainda fresca que todos os dias me dava as boas-vindas, e a memória auditiva que faz com que me reconheça a voz, ainda hoje, às primeiras (poucas) palavras.
São engraçados estes laços que vamos tecendo com as pessoas que nos cruzam a vida, e acabam por vir a ocupar lugares surpreendentes. É que, se é verdade que os papéis principais (que reservamos a pais, filhos, familiares e amigos próximos) são fundamentais, estes papéis secundários, estas figurações ou participações especiais, especialmente curtas, que apenas ocuparam curtos momentos nas nossas vidas, são, afinal, fundamentais para nos ajudarem a estabelecer as coordenadas de quem fomos, por nos ajudarem a situar-nos no eu que hoje somos, por nos acompanharem, ainda que à distância, no caminho que vamos percorrendo.
Como conclusão, e porque o meu objectivo principal neste blog é inspirar-vos momentos positivos, aqui fica a sugestão: lembrem-se das pessoas que vão ficando para trás, nas vossas vidas, e liguem de vez em quando. Não necessariamente para uma conversa passada no passado, mas só para dizer olá. É sempre engraçado visitar quem fomos através da memória que deixámos nos outros.